Eu não te devo merda nenhuma

Não é nada incomum o cervejeiro caseiro encher a boca pra falar sobre seu hobby.

7 de março de 2014


Afinal, poucos passatempos são tão bacanas E úteis ao mesmo tempo. Eu, pessoalmente, tenho uma puta vaidade em ser homebrewer. Minha produção pode ser jaguara, bastante intuitiva e nada metodológica, e minhas cervejas podem ser desequilibradas e os defeitos podem vir até de outras formas, mas a Maria da Penha Brew é um projeto meu (e só meu) no qual coloco muito carinho e lúpulo, e por esses e outros motivos, me encho de orgulho.

Como dito, não sou a única. Tem gente que fica até meio bitolada, só fala sobre rampas e eficiência e alguns até exageram ao quase eliminarem a parte divertida da produção caseira. Pessoalmente, levo minha cervejariazinha mais na manha, sem pretensões, com o intuito mais de me agradar (e me alcoolizar) do que qualquer outra coisa. Outros são verdadeiros profissionais, fazendo incontestáveis obras de arte. A ousadia parece ser qualidade comum entre essa galera, e, seja nos variados concursos que estão cada vez mais comuns, nas eventuais festinhas de domingo que acabam em derrame coletivo e ressaca moral, ou nas colaborações que muitos fazem com grandes cervejarias, os homebrewers possuem um papel crucial no movimento craft beer nas mais variadas instâncias.

Claro que nada disso ocorre num simples estalar de dedos. Por trás de tudo isso existe estudo, investimento, suor, queimaduras, machucados, aporrinhação... Tem aqueles com mais facilidade, outros extremamente estabanados (oi!), mas uma coisa é certa para os dois casos: há TEMPO e GASTOS envolvidos. E nenhum dos dois vem de forma moderada. Pelo contrário.

Uma brassagem normal dura entre 6 e 8 horas, dependendo do seu equipamento e aptidão para a vida. Passar um dia no fogão e depois ainda ter que lavar panelas, chão, paredes, teto (nem vou explicar) pode ser estupidamente cansativo, principalmente quando se faz sozinho. Ainda mais nesse verão da moléstia. A maioria das pessoas que conheço brassa aos finais de semana, ou seja, tiram uma parte generosa do seu tempo de descanso e lazer para produzir alguma coisa – que vai demorar tempo pra caralho pra ficar pronta, diga-se de passagem. Além disso, os insumos são caros, e nada paga nossa mão-de-obra escrava (tenta vender uma caseira e colocar o valor do teu trabalho no preço do litro... hahaha).

Enfim, quase tudo isso é pra lá de óbvio. Nada nessa vida é de graça, e se até cervejas vagabundas são caras (se pensarmos em termos produção de escala e milho), é pra ser evidente que algo extremamente artesanal tem um valor bastante elevado. Então me pergunto: por que diabos as pessoas insistem em falar (várias vezes, inclusive) que eu devo uma porra de uma cerveja pra elas? Quantas vezes a sucessão não lógica de palavras: “Tô sabendo que tás fazendo cerveja, tás me devendo uma, hein?” adentrou meus ouvidos e me causou dor de barriga? E por mais que já tenha sido violada com essa presunção absurda algumas centenas de vezes, meu cérebro continua a processar tal informação da mesma maneira que o fez na primeira vez: essa pessoa comeu merda hoje?

Sou obrigada a perguntar: o que aconteceu com o bom senso? Até mesmo, com os bons modos? Que palhaçada de dívida é essa? Não me lembro de ter tomado algo emprestado. Não me lembro dessa pessoa ter pago pelos meus insumos, lavado minhas panelas, consertado meu manicure destruído pelos produtos de limpeza, passado calor ao lado do fogareiro no meu lugar, e muito menos capinado o terreno da minha casa. Eu te devo exatamente o que? Talvez uma surra, que obviamente seus pais não se prestaram a dar. O que eu tenho certeza que eu NÃO devo é minha produção.

O pior de tudo é que essas pessoas parecem pensar que nós temos encanamento de cerveja em casa, e as torneiras jorram fermentados variados ao nosso bel prazer. E de graça, ainda por cima. Ah, e que as garrafas se multiplicam automaticamente, como se os recipientes se reproduzissem entre si ou fizessem brotamento. “Ah, pode largar o que tiver sobrando aí”. Cidadão, vou largar a mão na sua orelha. Não é possível que exista um desrespeito tão grande pelo tempo alheio. Não vejo você se oferecendo pra limpar os bombons que meus cães largam no jardim ou fazer faxina nos meus banheiros. Pelo que exatamente estou sendo cobrada?
E tem uns casos ainda mais abomináveis: aqueles que pedem sua cerveja e sequer querem beber contigo. “Ah, vou numa festa, me descola umas cervejas suas pra eu levar”. Pagamento jamais é mencionado (ou qualquer forma de troca), e ainda é esperado de você liberar bebida para ser levada para um local faxinístico qualquer aonde é quase que certo que as pessoas vão tomar um gole da sua suada cervejinha para depois transformá-la em sopa de bituca de cigarro. Afinal, não é todo mundo que aprecia, não é todo mundo que entende, e, obviamente, não é todo mundo que respeita.  

Claro que tem o pessoal que tem banheiro em casa e algum tipo de contato com a realidade. “Posso participar de uma brassagem? Gostaria de conhecer o processo”, mas ainda são poucos os casos. Mais escassos ainda são os que entendem o prazo envolvido nas empreendidas e não apenas acompanham um projeto do começo ao fim, como entendem que a cerveja não é uma dívida a ser exigida dos cervejeiros. Pessoalmente, poucas coisas me agradam tanto quanto dividir algo que produzi com meus amigos (e tem muita gente que se julga ter alguma amizade sem motivo plausível algum), mas ainda gosto de me reservar o direito de ter a iniciativa, e não me sentir coagida a distribuir garrafas como camisinha é jogada aos sete ventos no carnaval.

Então, fica aqui meu apelo: pessoas, tenham um pouco de respeito pela sistemática da coisa. Um pouco de noção nunca fez mal a ninguém. Parem de xingar minha mãe quando eu negar uma cerveja: ela não tem nada a ver com sua falta de critério. Guarde seu “quando vou provar sua cerveja?” impetuoso, porque se até hoje moramos próximos e não sentamos juntos para beber uma, obviamente não temos motivos para começar a fazer isso agora só porque você quer beber de graça. Aos amigos, aguardem o convite, ele provavelmente virá. Capine meu quintal, e suas chances vão ficar ainda melhores. Ou aprenda a fazer a sua própria, seu acomodado dos infernos. Agora, por favor, não cobre nada de mim.  Às amizades, devo apenas honestidade. Satisfação do que faço com minha produção, certamente que não.

Mariana Schneider

E-mail: dsschneider.mariana@gmail.com

Homebrewer, sommelier de cervejas, entusiasta do movimento cervejeiro e filósofa de vaso sanitário.

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